sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sustentabilidade Profissional: da Terra ao Profissionalismo Pessoal por Andréa Rosa


Publicado no jornal “Inform@-CIL” março 2011. 

O termo “sustentabilidade” vem ganhando força. Definitivamente entrou nos contextos mais diversificados das agendas das empresas. Profissionais das mais variadas áreas procuram conhecer, aprofundar, repensar e pesquisar todo e qualquer conhecimento a respeito desse assunto. Pedro Jacobi, da USP e coordenador do Teia (Laboratório de Educação e Ambiente) autor de “Educação ambiental, cidadania e sustentabilidade” afirma que “os grandes desafios para os educadores (...) são, de um lado, o resgate e o desenvolvimento de valores e comportamentos (confiança, respeito mútuo, responsabilidade, compromisso, solidariedade e iniciativa) e de outro, o estímulo a uma visão global e crítica das questões ambientais e a promoção de um enfoque interdisciplinar que resgate e construa saberes”.

Em “Pedagogia da Terra: ecopedagogia e educação sustentável” Moacir Gadotti, diretor do Instituto Paulo Freire, confronta o modo como produzimos, consumimos e convivemos de uma maneira mais radical e abrangente. Gadotti solicita para que tenhamos “um novo olhar sobre a educação, um olhar global, uma nova maneira de ser e estar no mundo, um jeito de pensar a partir da vida cotidiana, que busca sentido em cada momento, em cada ato, que ‘pensa a prática’ (Paulo Freire) em cada instante de nossas vidas, evitando a burocratização do olhar e do comportamento”.

Se de um lado temos esses e tantos autores, pedagogos, filósofos, pesquisadores levantando ações reais e concretas em busca de melhorias progressivas sobre a qualidade de vida atual e futura das pessoas que habitam na Terra, porque não repensarmos que não só a sustentabilidade ambiental, mas também a pessoal e profissional devem ser repensadas a partir de suas próprias práticas?

Todos nós temos convicção que os colégios são empresas vivas, pois quem compõe o espaço físico, são colaboradores e por tanto seres vivos.  Os quais sofrem e estão repletos de anseios, satisfações, decepções e muitas alegrias. São pessoas que dão ideias, que fazem projetos, repensam suas potencialidades e práticas, buscam melhorias e até aceitam determinadas regras de sobrevivência.     

Pessoas que levam com si próprios princípios éticos, morais, criativos, inovadores, muitas vezes não só buscando uma realização profissional mas,  tentando atingir resultados pré-estabelecidos por si próprio.

Seres humanos que ainda não perceberam que o termo “sustentabilidade” está intimamente ligado a “uma nova maneira de ser e estar no mundo”.  

Repense junto comigo alguns pontos essenciais para gerarmos parte de nossa “sustentabilidade profissional”:

-  Assuma a responsabilidade por seus atos.
-  Desenvolva a disciplina pessoal.
-  Conheça suas fraquezas.
-  Alinhe suas prioridades e seus valores.
-  Admita logo seus erros e peça desculpas.
-  Tome cuidado dobrado com as finanças.
-  Coloque a família antes do trabalho.
-  Valorize as pessoas.


Entre tantas características a serem mais desenvolvidas em 2011, insira naturalmente mais uma: assertividade! Seja e busque ser assertivo. Pessoas assertivas aceitam melhor os obstáculos, os fracassos e as adversidades da vida, tirando sempre lições positivas dos mesmos e mantendo sempre uma frase positiva “bola pra frente” para atingir seus sonhos e objetivos, nunca se isolando das pessoas com as quais convive e mais que tudo levam a vida com uma grande dose de alegria.

O filósofo Mário Sérgio Cortella explica que seriedade não é necessariamente sinônimo de tristeza ou falta de humor. “O contrário de seriedade não é alegria, mas, sim, falta de compromisso”. Para ele, não há dúvida de que o tema ‘sustentabilidade profissional’ pode ser tratado com bom humor. “Por ser um tema sério, precisa de atração, sedução e conexão, e isso o humor pode oferecer. O humor serve para encantar e não apenas para distrair ou fazer desaparecer o foco. Como uma expressão inteligente da capacidade humana, espanta, interroga, surpreende, ensina e faz pensar”. 


Ainda não apareceu o Gandhi da sustentabilidade nem o Mandela da biodiversidade. Não apareceu nenhum Martin Luther King para a mudança do clima. Mas não basta um no mundo. Tem que ter aos milhões, em todas as atividades.”
Fernando Almeida.
Presidente executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável.

Aprendizagem Significativa por Andréa Rosa





                        


Publicado na revista Direcional Educador,
                     Jan. 2011, pág. 30 a 33.

                  
Aprendizagem Significativa pode ser um tema, que para muitos, já tenha se desgastado com o passar dos anos. Se pensarmos no mesmo como um modismo ou num conceito trabalhado na década de 60, 70 por David Ausubel, com sua Teoria da Aprendizagem, com certeza será um assunto bastante redundante e ultrapassado. Talvez se olharmos como um ponto que virou referência nas concepções psicopedagógicas, desde que os cursos nessa área iniciaram, também acreditaremos nisso. Numa concepção falida e cansativa, embarcada pelo tempo e que hoje possa ser um simples ato inutilizado. Pior do que isso, se analisarmos, friamente, o uso desse conceito em nossa prática sistematizada, atualmente, pelos sistemas apostilados de ensino, com certeza desistiremos do assunto e definitivamente teremos plena certeza de que é uma teoria nostálgica.  

Por outro lado, para aqueles que realmente se preocupam em resgatar, constantemente, essa prática e torná-la muito mais do que uma teoria, um modismo ou uma concepção ultrapassada; torná-la um ato prático e aplicá-la nas relações interpessoais entre professor-aluno, tenho certeza de que gostará de conversar um pouco a respeito desse assunto, o qual não possui término e sim, reinicio a cada nova experiência dentro da sala de aula.  

Talvez alguns professores estejam pensando: “Mas que ‘démodé’ falar sobre esse assunto”. “Já estamos cansados de ouvir essa mesma ‘prece’ constantemente”. Realmente, concordo. Que cansativo! Porém se essa atitude estivesse inserida e impregnada nos professores de todos os níveis, como as coordenadoras pedagógicas esperam, não precisaríamos passar esse tempinho discutindo a respeito. Muito menos relembrando que não é uma ação isolada, mas subjaz na construção do conhecimento. É algo pertinente e indiscutivelmente interligado. Não deve ser um procedimento impingido.             

Damos algumas desculpas para não aceitarmos que estamos falhando em nossos procedimentos didáticos. Alegamos que os adolescentes “não querem saber de nada”; que estudar para eles é obrigatório; não veem como algo fundamental, importante muito menos necessário. Brincam o tempo todo com determinadas “frases prontas” como “quem não estuda vira Presidente da República” ou “quem não cola não sai da escola” e vejam que essa frase é da minha época!

Normalmente o professor ainda insisti em arrumar pretextos para não assumir que está difícil lidar com essa tal “aprendizagem significativa”. Coloca que a culpa possa ser dos alunos ou que o motivo de seu desinteresse pelo assunto fica expresso em outras frases como “o tempo é curto para elaborarmos novos procedimentos eficazes para atingirmos nossos alunos”, no bom sentido. Evidentemente! “Temos muita ‘papelada’ para preencher”. “Cada vez mais a coordenação nos sobrecarrega com documentos que devem ser apresentados para as Diretorias de Ensino ou para a própria Direção do colégio”, a qual exige aqueles “questionários de satisfação ou de desempenho”. São tantas obrigações excludentes à sala de aula que “fica cada vez mais impossível, pensarmos nos alunos”.

Mais uma vez questiono se isso tudo não possa estar sendo uma demonstração de variadas desculpas para ações que nem nós mesmos estamos sabendo como agir. Me preocupa bastante essa tal “aprendizagem significativa” não ter sido aquilatada pelos verdadeiros educadores. Fiquem tranquilos quando me incluo gratuitamente nesse “embrulho” pois já fui professora por muitos anos e ainda sou uma coordenadora pedagógica. Sei muito bem o que o professor e os alunos sentem. Talvez, nesse processo todo, é que estamos tendo medo de encarar o que seja novo ou quem sabe rearticular o “antigo”.

Você lembra mais uma questão que eu não mencionei. Acredita que eu possa ter esquecido. Parece que todos os autores do passado como Dewey, Stenhouse, Montessori, Decroly, Cousinet, Freinet, Neill tiveram tempo para pensar em aprendizagem significativa, pois não lidavam diretamente com alunos em sala de aula. Muito menos com a quantidade de 40 ou 50 alunos dentro da mesma classe, convivendo nesse século, nesses anos que estamos vivendo, com tanta tecnologia, informação e desencontros culturais. Sem mencionarmos na desestruturação familiar, a qual “jogou” para a escola toda uma bagagem de responsabilidades que não nos convém. Muitos professores dizem “enquanto escola não somos ‘obrigados’ a educar e sim transmitir conhecimento”. Bem, mas isso é uma conversa para outro momento. Então, você se pergunta como eles eram capazes de falar veementemente sobre auto-estruturação do conhecimento? Para eles era muito mais fácil, falar sobre algo que nem vivenciaram. Fica confortável para eles insistir sobre essa ação.  

Vou acalmá-lo um pouco sobre esses aspectos que se confundem em sua mente e te deixam esgotado, antes mesmo de pensar melhor a respeito. Ainda mais nesse momento de reinicio das aulas, onde supostamente você agiu de duas formas: ou largou todos os livros, apostilas, projetos, ideias, elaboração de aulas para trás, a fim de descansar desse contexto educacional e nem lembrar que é professor por um bom tempo ou você permaneceu parte de suas férias dedicando um tempo em pesquisar novas propostas, desafiar-se em como retornar ainda melhor, atraindo a atenção desses “rebeldes sem causa”.

Relembrando um pouco da história, veremos que a maioria desses autores, pedagogos, vivenciaram uma educação baseada em exames absurdos, muito mais seletivos do que os atuais, castigos físicos, punições excessivas, sentimentos de ódio e medo dentro da educação, mesmo porque presenciaram guerras e sofreram mutações de experiências alternativas nas bases educacionais. É correto afirmar que na maioria desses e tantos outros autores, eles buscaram por uma prática diferenciada das que vivenciavam. Quiseram mudar essa história e os caminhos que estavam sendo traçados.

Gostaria de compartilhar alguns desses exemplos. Neill iniciou sua carreira como professor ajudante na escola rural num município da Escócia. Sim! Neill foi “auxiliar de classe”. Só depois tornou-se professor substituto, titular e por fim diretor-interino de uma escola em Gretna. Dewey após formar-se em 1879 em Vermont trabalhou como professor secundário (o que equivaleria nos dias atuais ao Ensino Fundamental) por três anos e após o doutorado em Filosofia trabalhou como professor universitário. Stenhouse foi docente da Educação Básica (antigo Primário, atual Ensino Fundamental) antes de iniciar sua carreira como professor universitário.

Como podemos observar a grande maioria desses autores, pedagogos ou mesmo que não tenham a formação inicial na área da educação, atuaram junto aos alunos e docentes, mostrando que existem formas de se obter aprendizagem significativa, no momento em que nos permitimos percebê-la. Eles foram docentes como nós e se mostraram insatisfeitos com o nível de aprendizagem de seus alunos ou a falta dessa aprendizagem. Buscaram alternativas e soluções para possíveis “problemas de aprendizagem”. Procuraram fazer “diferente”. Ser um diferencial.

Pensando por esse ângulo, nós também devemos buscar o diferencial em nossas aulas. Quando nem se falava em projetos, registros ou pesquisa de campo, Stenhouse lançou essa ideia e afirmou que “se a educação tivesse mais lembranças e registros históricos, alguns problemas com os quais nos deparamos seriam muito mais bem compreendidos”.

Quando o Brasil passava por um contexto social muito denso e crítico com o militarismo e a rigidez no diálogo, Paulo Freire desafiou criticar a concepção educacional do país e falar abertamente que deveríamos ter uma aprendizagem dialógica. “Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo”.

Se nos apropriarmos nesse momento desses dois exemplos, entre tantos outros que poderíamos aproveitar sobre esses grandes pedagogos veremos que já relatavam o que estamos enfrentando. Freire relatou sobre as mudanças sociais ocorridas no país que não foram registradas e nem dialogadas pelos professores de História ou de Geografia. Como fazer esse diálogo ser mais significativo para os alunos? Mais interessante. Poderiam aproveitar para fazer com que seus alunos registrem os momentos que eles estão vivenciando. Isso inclui até as mudanças no Enem. O que não é um fato isolado ao mundo deles, mas concreto, real, significativo e mais ainda, co-relacionado à eles. Pode ser que num futuro e bem próximo, visto a velocidade das informações e mutações sociais, que o próprio Enem e tantos outros acontecimentos, se percam pela falta de registro. Um bom reinício para as aulas dessas matérias seria solicitar aos alunos que façam uma retrospectiva do ano passado ou do 1º semestre sobre os acontecimentos históricos. Poderão usar as multimídias, na verdade, infinitas mídias, para apresentarem esse trabalho. O visual é fundamental para essa juventude. Imagine que delicia você assistir uma “retrospectiva 1º semestre 2010”, apresentadas por seus alunos, contextualizando o que os afeta diretamente, antes do final do ano.   

Quer melhor momento de resgate cheio de significados do que esse? O professor não precisará fazer a famosa “revisão tradicional” do pós férias por duas aulas seguidas, tentando obter atenção dos alunos, se desgastando porque os mesmos não prestam atenção e com certeza no final do ano, todas essas informações cairão no esquecimento, pois tudo pode ter sido aprendido e não apreendido. Isso é um claro exemplo de aprendizagem significativa deixando de ser um modismo ou uma concepção ultrapassada.

Você pode estar se perguntando se eu não conheço métodos de ensino apostilados? “Dentro dos mesmos não há tempo para revisões dessa forma”. Sinto dizer-lhe, mas se você não “parar” algumas aulas para fazer um resgate significativo com seus alunos, eles não conseguirão caminhar fluentemente nos novos conteúdos que estão por vir. Para isso existe algo chamado “planejamento vivo”. Já ouviu falar? Engraçado, não é? Mas, o verdadeiro planejamento não é aquele monte de papéis que você entrega no início do ano para serem arquivados e muitas vezes repemte-se por anos o mesmo, só alterando o ano legado. Segundo Danilo Gandim “o planejamento é um processo vivo e não se resume ao preenchimento de quadros com planos que, sob o pretexto de serem flexíveis, nunca são praticados como foram concebidos”. Você tem que se programar para as aulas de revisão, de resgate. Pois pode ter muitos alunos naufragando bem debaixo de seus lindos olhos.

Outro exemplo de aprendizagem significativa que posso falar, partindo de John Dewey que sempre apostou na libertação literária tanto que criou a “Escola laboratório” seria relembrá-los de uma frase muito significativa pronunciada por ele “dentro do magistério, devem existir a iniciativa, a discussão e a capacidade de decisão”. Imaginem as turmas da Educação Infantil e séries (ou anos) iniciais do Ensino Fundamental, dando uma volta em torno do quarteirão, para a famosa aula “conhecendo nosso bairro”. Antes fazíamos algo tão trivial. Os alunos em fila, com as mãos sobre o ombro do amiguinho para que nada aconteça e nenhum se perca, vendo (simplesmente) e não olhando o lugar, a “tia” chamando a atenção dos mesmos sobre alguns aspectos e após algum tempo retornam para a sala de aula, fazem um lindo desenho individual do “seu bairro” e o colocam no mural da sala ou do corredor. Pergunto: o que foi importante, significativo e marcante para esse aluno?

Como estamos vivendo nesse século, que você tanto reclama que as coisas “mudaram para pior”, podemos aproveitar as tecnologias que ele pode nos oferecer “de melhor”. Que tal, se encaminharmos um recado para os pais, que seus filhos poderão trazer a máquina digital (excepcionalmente) para a escola e registrarem, por eles mesmos o passeio. Tudo o que se destacar aos olhinhos deles. Tirando fotos de tudo o que considerarem importante e significativo. Depois ao retornar para o colégio utilizarão, juntamente com a professora de informática, o laboratório de informática para escolherem as melhores fotos. Logicamente, cada um poderá escolher uma ou duas dentre todas que tirou para serem colocadas num mural com um título que ele mesmo escolher para cada foto. Só então serão colocadas no mural, na ordem física e cronológica que o passeio aconteceu. Todos contribuirão coletivamente com a colagem, respeitando o gosto e o olhar que cada um teve sobre os mesmos lugares. Acredito que romperemos com nossas próprias acepções sobre o bairro.        

Poderia mencionar muitos outros exemplos nas mais variadas áreas de ensino, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Seria um prazer relembrá-lo de tantas possibilidades. Porém, acredito que se você permanecer achando essa história de “aprendizagem significativa” cansativa e redarguir a tudo que menciono, verbalizando que você não tem culpa da desmotivação de seus alunos; será bobagem eu insistir que nossos discentes, desse século, compondo essa realidade, estão esperando que suas aulas se tornem mais interessantes, produtivas, questionadoras, ousadas, experienciais, dialogadas, inovadoras dentro dos mesmos conteúdos que estão sendo dados há anos. 

Mude!Acredite! Ouse! Você transmitirá mais significado para a existência humana de seus alunos.          

O professor tem necessidade de, ao longo de um certo tempo, obter elementos capazes de lhe possibilitarem a revisão de certos pressupostos com os quais trabalha para desencadear a transposição da experiência teórica recém adquirida para a sala de aula. A distância que separa o conhecimento teórico da aplicação prática vai sendo diminuída, preenchida por força de ações mediadoras, fortemente imbricadas com a própria experiência docente, com as diferentes oportunidades de aprender que o professor encontra ao longo do exercício do magistério, sem o que não há como percorrer caminho algum.
(Barretto, Pinto, Martins, 1999: 112).

Andréa Rosa
21-07-2010

TDHA e Dislexia.


“Todos os nossos sonhos podem tornar-se realidade se 
tivermos a coragem de persegui-los”.
Walt Disney


Com o número crescente de alunos com TDHA, Dislexia e tantas outras situações que exigem um olhar especial dos professores em sala de aula, muitos se encontram numa situação difícil, não sabendo lidar com esses alunos.

Se faz necessário reiniciarmos um processo de conhecimento e desenvolvimento de trabalho específico com esses alunos, visto que os colégios, de um modo geral, estão recebendo alunos com esses perfis.

Para iniciarmos esse relatório, afirmo que não são “alunos especiais”. Portanto, não se caracterizam como “inclusão”. São apenas discentes que devem receber, por parte do docente, um olhar mais atento, zeloso, cuidadoso e na medida do possível e do previsto, uma atenção diferenciada, não esquecendo ou deixando de observarem o restante da classe.

Percebo muitas vezes que alguns professores que verdadeiramente estão envolvidos com a educação e com seus alunos, são os primeiros a detectarem as dificuldades esses apresentam. Parabenizo-os por tal atitude e envolvimento, visto que o professor é um dos principais personagens envolvidos diretamente com esse trabalho e a pessoa que possui o maior contato com todos os alunos.

Digo também que faz parte do papel do verdadeiro educador, comprometido com seu trabalho, induzir e perceber o movimento da classe e de outros alunos a terem uma postura adequada frente aos colegas disléxicos e TDHA(s).

“O professor é o elemento decisivo na sala de aula. É sua relação pessoal que cria o ambiente, é o seu humor diário que gera o clima. Ele pode tornar a vida de um aluno infeliz ou alegre. Pode ser a ferramenta da tortura ou o instrumento da inspiração. Ele pode humilhar ou alegrar, ferir ou curar” - Dr. Haim Ginott, psicólogo educacional, para revista Profissão Mestre, abril, 2005, pág. 18.

Posso afirmar que sentiremos um imenso prazer, ao findar o ano letivo, vermos que conseguimos resgatar esse aluno e sucessivamente sua aprendizagem. Mais ainda, quando o aluno sentir-se estimulado em recomeçar o próximo ano com mais disposição em vir para a escola e aprender, pode ter superado mais uma etapa.

Para que compreendam melhor esses casos, segue abaixo, um resumo sobre:
  • TDHA: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, que também pode ser chamada de DDA. Uma condição que inicia na infância e, muitas vezes, continua na idade adulta. Estudos comprovam que 3 a 6 das crianças na idade escolar sofrem de TDHA. Um número bastante significativo. Estudos realizados no mundo inteiro encontraram tendências genéticas e ambientais, as quais são hoje, consideradas as principais causas de TDHA. O que se tem de informações também é que existe um desequilíbrio entre as substâncias cerebrais: dopamina e noradrenalina. O tratamento em geral, pode ser feito através de terapias comportamentais, medicamentos ou pela combinação de ambos.
  • DISLEXIA: também conhecida como distúrbio da linguagem (do grego) e da leitura (latim). Tem por base problemas de ordem neurológica, existindo também uma incidência expressiva do fator genético. O disléxico tem a área mais específica de seu hemisfério cerebral lateral-direito, desenvolvida que os leitores normais. Condição que, segundo estudiosos, justificaria seus "dons" relacionados à sensibilidade, artes, atletismo, mecânica, visualização em 3 dimensões, criatividade na solução de problemas (oral) e habilidades intuitivas. O disléxico normalmente aprende, porém de maneira diferente dos demais alunos. Seu tempo de aprendizagem é outro.
Para uma maior segurança de todos, relato abaixo algumas das maiores dificuldades (no geral) que esses alunos (com Dislexia e TDHA) possuem:
  • Dificuldade de concentração: visto que qualquer barulho ou movimento interno (até de outros amigos) e algumas vezes, externo a sala de aula tirará o foco e a concentração desse aluno.
  • Fixar e assimilar conteúdos: a memória é um dos pontos atingidos. Sua memória, geralmente, é curta. Lembrando-se apenas de situações mais estimulantes e interessantes. Normalmente seguidas de um processo físico, que o faça relembrar do que lhe foi explicado. Como exemplo: alguns alunos conseguem estudar em casa, batendo a bola na parede e falando as tabuadas em alta voz. Dessa forma, muito associam as batidas e o ritmo constante dessa, com o conteúdo que está sendo pronunciado.
  • Executar tarefas em casa: devemos relembrar antes que alguns desses adolescentes encontram-se sozinhos para executarem suas tarefas em casa. E aqueles que possuem um respaldo familiar, não conseguem reproduzir com exatidão para os pais, o que foi solicitado pelo professor (em classe) para ser feito em casa. Quando os responsáveis verificam suas anotações na agenda ou no caderno, percebem que tudo foi registrado de forma incoerente ou pela metade. Por isso, raramente apresentam tarefas de forma completa e organizada. Sua localização espacial é outra.
  • Dificuldade em interpretar textos: em classe, se veem sozinhos para lerem textos expressivos, complexos e longos e em “pouco tempo” (lembrando que para ele o tempo é singular). Quando conseguem finalizar a leitura do texto, já esqueceram dos detalhes iniciais do texto e para a maioria dos disléxicos não existe acentuação, nem pontuação.
  • Dificuldade de resolver situações-problemas: pela mesma falta de interpretação coerente do enunciado do problema matemático, o aluno terá dificuldades de interpretar o que está sendo solicitado. A resposta surge errada porque fazem má compreensão da pergunta e não possuem concentração específica.
  • Organização temporal e espacial: geralmente esses alunos não possuem organização quando ocupam as folhas do caderno, principalmente construindo e fazendo cálculos. Os números são colocados em desordem. Ex: 127 + 7 = ???
    Algumas vezes conseguem organizar coerentemente a construção, porém o resultado da “conta” é registrado em outro lugar na folha. O professor terá que procurar “onde foi parar o resultado”.
  • Participação oral: dependendo do caso e do grau da situação, o aluno é capaz de responder claramente e com muito mais facilidade, desempenho e confiança, quando solicitado, as respostas da avaliação escrita, de forma oral. Ou seja, se o professor conseguir organizar um tempo, entre uma aula e outra e confirmar com esse aluno o que o mesmo “quis dizer” com as respostas escritas, verá que ele possui conhecimento sobre o conteúdo. Muitas vezes não conseguiu reproduzi-lo adequadamente na prova escrita. 
JAMAIS PEÇA PARA QUE SÓ ESSE ALUNO FAÇA UMA CHAMADA ORAL. O cuidado em não expor o mesmo, é bastante significativa para sua recuperação e melhora.
  • Fazem troca de palavras e seus significados.
  • Acrescentam ou extraem fonemas (caracterizando dificuldades com a ortografia).
  • Possuem um tempo para execução das tarefas, diferente dos demais alunos (caracterizando lentidão na escrita e na leitura).
Para melhor desenvolvimento em sala de aula, sugiro abaixo algumas ações específicas para com esses alunos e de certa forma, uma possibilidade de resgate coletivo:
  • Primeiras carteiras: os professores coordenadores de classe devem estar atentos a ocupação dos primeiros lugares na sala de aula. Geralmente são ocupados por alunos que trazem “problemas de comportamento”, para que o professor possa ter um maior controle sobre o mesmo. Sugiro, que se o aluno em pauta (comportamento) tiver um ótimo desenvolvimento cognitivo e intelectual, seja colocado na última carteira, para que não tenha o incentivo da “platéia” e sucessivamente os alunos com Dislexia e TDHA, possam ocupar os primeiros lugares na sala de aula.
  • Avaliações: muitos pais e profissionais da área, que fazem os atendimentos específicos com esses alunos, solicitam para que os mesmos executem suas avaliações na sala da coordenação pedagógica ou em outro espaço reservado com mais silêncio. Caso isso não aconteça e esse aluno realize as provas coletivamente em classe, será necessário que recebam uma atenção a mais, por parte dos docentes na própria sala de aula. TOMANDO OS DEVIDOS CUIDADOS EM NÃO “DESTACAR” O MESMO. Para que não fique evidente que você estará alertando esse aluno sobre suas “possíveis respostas erradas” passeie por entre as carteiras, verificando todos os alunos e dentre os mesmos, releia algumas das respostas “dadas” por esse aluno. Para que o mesmo fique atento ao que escreveu. Se o mesmo quiser, você poderá se colocar à disposição, para que vá a sua mesa e tire uma dúvida (de leitura e escrita) e não conteudista!
  • Ao fazer um pedido, ou ministrar uma ordem, que seja feita uma por vez. Sempre registradas no caderno ou agenda e verbalizadas claramente.
  • Solicitar e perceber se o aluno pegou somente o material que será utilizado naquele momento. Caso sua carteira possua muitos materiais, o mesmo usará desses para se distrair.
  • Solicitar a agenda e o caderno do aluno para verificar se as lições, atividades e trabalhos, foram corretamente registrados. Oriente-o sobre seus registros.
  • Verificar se esse aluno fez corretamente a cópia da lousa, antes de apagá-la. Caso não o tenha feito, marcar a quantidade que falta (no caderno do mesmo) e solicitar que continue as demais escritas juntamente com o professor. Pedir para outro aluno, que empreste (na própria aula) o caderno, para que o aluno possa copiar as linhas faltantes, após o término da “cópia” coletiva.
Valem algumas dicas gerais a serem desenvolvidas, para colher de forma significativa, a compreensão do conteúdo a ser trabalhado, não só para esses alunos, mas para todos, transformando suas aulas, em processos mais interessantes:
  • Intermediando as aulas expositivas, usar outros materiais visuais, coloridos, slides, pôsteres, filmes, gravuras, mapas, músicas, ritmos, sons, giz colorido, jogos dramáticos, recursos visuais, onde os alunos poderão associar o conteúdo ministrado, ao visual aplicado.
  • Cartazes e outros papéis não pertinentes ao conteúdo, nem deverão ser utilizados para não confundir.
  • A entonação de voz também é pertinente para que os alunos gravem o que está sendo dito. Como dramatizações, reviver uma história, fazê-los fantasiarem o lugar, a época, usar a imaginação, refletir uma ação, esperar e analisar a reação de outro colega; são formas lúdicas que ajudam na memorização dos conteúdos. Canais de facilitem a comunicação.
  • Quando um determinado conteúdo for muito importante, chamar a atenção de todos para aquele momento. Use de expressões corporais para que assimilem e associem essa ação com o conteúdo. Geralmente professores que ministram aulas sentados, não conseguem bons resultados dos alunos na compreensão dos conteúdos novos.
  • Emitir lição de casa SEMPRE, pois a mesma é um reforço do que foi aprendido em sala de aula. Porém, cuidado com a quantidade excessiva da mesma. Se solicitar lição de casa, a mesma deverá ser cobrada e resgatada em sala de aula. Tarefas para casa, não são registros para satisfazerem pais e sim alunos.
  • Após solicitar um trabalho escrito e corrigi-lo na íntegra, deverá ser dado um feedback (retorno) para o aluno, comentando todas as possíveis trocas feitas por ele. Afinal, seria incoerente por parte do professor, solicitar trabalho e NÃO CORRIGÍ-LO. Pior ainda, pontuá-lo pela estética ou quantidade somente.
  • Estimular as competências e habilidades de todos os alunos, reforçando sempre sua auto-estima. Reforçar acertos dos alunos é muito gratificante para eles!Parabenize-os. Afinal, você também gosta de ser reconhecido.
  • Solicitar leituras de textos curtos e interessantes, associados com a matéria a ser ministrada, fazendo com que o aluno, em 5 ou 10 minutos, extraia a ideia principal do mesmo. Para que crie o hábito da leitura e interpretação.
  • Solicitar produção de textos orais (para TODOS os alunos), registrando na lousa a produção coletiva, tendo a intervenção do professor, parágrafo por parágrafo do que for construído. Só depois oriente-os para que registrem no caderno,
  • Repensar formas avaliativas curtas e diversificadas para todo o grupo, oportunizando assim todos os alunos que possuem habilidades diferenciadas de construção.
  • Exemplificar o texto com situações do dia a dia.
  • Mostrar para todos os alunos, qual será a dinâmica da sua aula naquele dia. Para que haja coletivamente uma organização. Não só do aluno, como sua. Registre um título específico para sua aula e até o objetivo da mesma. Caso sua aula seja num ritmo diferente do que vocês está habituado a ministrar, registre na lousa as etapas dessa aula.
  • Retomar conteúdos anteriores, sempre que possível e necessário. Principalmente no reinício de um novo conteúdo. Dessa forma, você estará resgatando os conteúdos mínimos e necessários para que o aluno tenha uma sequência mental.
Para maiores aprofundamentos sobre Dislexia e TDHA, sugiro algumas bibliografias, as quais poderão ser indicadas pela escola para os pais desses alunos:
  • Dislexia – ultrapassando as barreiras do preconceito. James J. Bauer, Editora Casa do Psicólogo.
  • Hiperatividade – como lidar? Abram Topczewski, Editora Casa do Psicólogo.
  • No Mundo da Lua: Perguntas e respostas sobre Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade em crianças, adolescentes e adultos, cujos direitos foram cedidos à ABDA pelo autor. Paulo Mattos. Lemos Editorial.
  • Mentes inquietas: entendendo melhor o mundo das pessoas distraídas, impulsivas e hiperativas. Ana Beatriz B. Silva, Editora Napades.
  • Princípios e Práticas em TDAH. Luis Augusto Rohde, Paulo Mattos e colaboradores. Artmed Editora.
  • Filme: Prova de Fogo, com Laurence Fishburne, Ângela Basset e Keke Palmer.
ANDRÉA ROSA
04-08-2010

"Você é idoso ou velho" - autor desconhecido.


Este é o depoimento de uma pessoa com 70 anos.

“Idoso é uma pessoa que tem muita idade. Velho é a pessoa que perdeu a jovialidade.

A idade causa degenerescência das células. A velhice causa a degenerescência do espírito. Por isso nem todo idoso é velho e há velho que ainda nem chegou a ser idoso.

Você é idoso quando sonha. É velho quando apenas dorme.

Você é idoso quando ainda aprende. É velho quando já nem ensina.

Você é idoso quando pratica esportes, ou de alguma outra forma se exercita. É velho quando apenas descansa.

Você é idoso quando ainda sente amor. É velho quando só tem ciúmes e sentimento de posse.

Você é idoso quando o dia de hoje é o primeiro do resto de sua vida. É velho quando todos os dias parecem o último da longa jornada.

Você é idoso quando seu calendário tem amanhãs. É velho quando seu calendário só tem ontens.

O idoso é aquela pessoa que tem tido a felicidade de viver uma longa vida produtiva, de ter adquirido uma grande experiência.

Ele é uma ponte entre o passado e o presente, como o jovem é uma ponte entre o presente e o futuro. E é no presente que os dois se encontram.

Velho é aquele que tem carregado o peso dos anos, que em vez de transmitir experiência às gerações vindouras, transmite pessimismo e desilusão. Para ele, não existe ponte entre o passado e o presente, existe um fosso que o separa do presente pelo apego ao passado.

O idoso se renova a cada dia que começa; o velho se acaba a cada noite que termina. O idoso tem seus olhos postos no horizonte de onde o sol desponta e a esperança se ilumina.

O velho tem sua miopia voltada para os tempos que passaram. O idoso tem planos. O velho tem saudades. O idoso curte o que resta da vida. O velho sofre o que o aproxima da morte.

O idoso se moderniza, dialoga com a juventude, procura compreender os novos tempos. O velho se emperra no seu tempo, se fecha em sua ostra e recusa a modernidade.

O idoso leva uma vida ativa, plena de projetos e de esperanças. Para ele o tempo passa rápido, mas a velhice nunca chega.

O velho cochila no vazio de sua vida e suas horas se arrastam destituídas de sentido. As rugas do idoso são bonitas porque foram marcadas pelo sorriso. As rugas do velho são feias porque foram vincadas pela amargura.

Em resumo, idoso e velho, são duas pessoas que até podem ter a mesma idade no cartório, mas têm idade bem diferente no coração”.

Bambolê por Andréa Rosa.


Mais um ano inicia. Levanto-me afoita em presenciar a mais uma “Semana Pedagógica do Colégio”. Hoje, especialmente teremos no cardápio uma reunião com todos os grandes mestres do colégio. Da Educação Infantil ao Ensino Médio. Encaminho-me para esse “encontro do saber” esperando receber mais conhecimentos do que minha vã capacidade permitiria. Se isso for possível! Talvez sugestões de ações práticas ou em como dinamizar mais as minhas teorias tão amplas. Quem sabe resignar menos as minhas teorias. Quem sabe falarão algo excessivamente diferente do que eu tenha ouvido. Mas, sinceramente? Acredito que as mesmas falas se repetirão.

Porém, ao chegar, me deparo com mais uma proposta, no mínimo, estranha. Fico incomodada e questiono “o que faço aqui?” Principalmente porque é início de um novo ano, o qual ainda não percebi para onde estará caminhando. Somado a isso, o horário. É tão cedo, ainda... poderia estar aproveitando para me perder em largos e longos lençóis. Me aprumar nos meus sonhos encantadores e serenos; o oposto do que poderei viver ao lado dos meus angelicais e adoráveis adolescentes.

Uma coordenadora aproxima-se e nos entrega; a mim e ao grupo; o qual encontra-se “pasmo”, se questionando entre olhares; os arcos coloridos conhecidos por bambolês! E penso “lá vem mais uma dinâmica espalhafatosa, da qual deveríamos tirar ensinamentos profundos!”

Bambolê! O que fez com que uma pessoa trouxesse para um dia eminentemente  conceitual e pedagógico esses aros de plástico, de uns 60 cm de diâmetro, aproximadamente, que foi moda numa década longínqua. Lembro que eu e minhas amigas colocávamos o aro na cintura e rodávamos. Na ocasião, nem imaginávamos como as academias iriam rever esse objeto como um poderoso emagrecedor. Haviam até algumas mais ousadas, que colocavam o bambolê no pescoço, na coxa, nos braços e giravam com a mesma facilidade.

Esse círculo sagrado em outras culturas, americanizados com o tempo, industrializados no processo da grande eclosão industrial e me perdoem, mas excessivamente engolfado em si mesmo. Chegava a um ponto de faltar oxigenação cerebral com o uso excessivo do mesmo levando quase que ao transe quem conseguia rodá-lo por mais tempo. Mas sempre tinha um lado bom, aliás, como em quase tudo na vida, a possibilidade de integração social.

Questiono novamente “onde chegaremos com essa recordação um tanto quanto estapafúrdia da infância”. Aos poucos vou entregando-me a proposta, vou percebendo os colegas, analisando os homens, especialmente os mestres do Ensino Médio, alguns muito atrapalhados, outros no mínimo estranhos, outros sem o menor jeito para administrar àquele objeto redondo e colorido; tem até um colega que ousa algumas manobras mais diferenciadas ou radicais, pela idade dele, e outro que faz questão de ser o centro das atrações. E assim, vou percebendo todos os meus nobres e notáveis colegas.

Incrível! Posso não ter percebido o término da dinâmica, muito menos ter compreendido a fundo sua proposta; menos ainda ter achado o momento útil; mas algo posso afirmar! Me vi como um aluno. Não pelo simples brincar, encantar-se com os risos e as palhaçadas e com o estranho, diferente e até interessante. Muito menos me senti como um aluno porque tenha voltado à infância; mesmo porque nunca fui uma “expert” na arte de bambolear. Mas senti-me como um aluno no momento em que ativei naturalmente meu olhar, de forma crítica sobre as pessoas. Percebendo o movimento das pessoas, os quais poderiam estar à frente da dinâmica e serem meus professores. Trazendo uma linguagem nova para a aula; querendo inovar num instrumento de apreciação; tentando o novo e ousado para nos tirar de uma rotina de trabalho tão exaustiva e, se depararam com alunos, como muitos ali, críticos, sem vontade, desprezando qualquer atitude inovadora e buscando conhecer mais intensamente as competências de cada um dos colegas, através de uma simples dinâmica. Talvez no olhar aguçado do aluno, um tanto quanto “careta”.

Foi aí que percebi minha frustração, por  ter me visto no lugar de aluno, que não mostra interesse por nenhuma das aulas que lhes são propostas. Mas, meu alívio veio em seguida, antes que tivesse que aumentar meus comprimidos antidepressivos; sou professora! Uma educadora! Posso sempre contar com uma equipe, que estará constantemente discutindo os mesmos conflitos, as mesmas dúvidas, ansiedades e medos. Tentando o novo, acertando muitas vezes e errando em outras. Mas sempre estaremos utilizando o mesmo instrumento, o qual não será o bambolê; mas o amor pela profissão!  E pensei “que bom ter participado dessa dinâmica com os olhos de um educador!”

Em um mundo onde cada vez mais pessoas se sentem sozinhas e incapazes de interagir, o bambolê acaba agindo como uma poderosa ferramenta de inserção social e concluo que “o sucesso do Colégio depende mais da qualidade do trabalho em equipe do que o brilho de algumas personalidades”.

A Turma por Lucícia Bonacho.


A turma tinha vinte e seis alunos e era a décima do sexto ano. Os Bons, os Maus e os Águas faziam parte dela. Como todas as turmas da Escola, tinha as suas beldades, os seus palhaços, os seus Quixotes... e uma multidão de Sanchos.

As crianças do 6º 10ª eram uma amostra da população escolar. Umas tinham pais ricos, outras tinham pais pobres - muito pobres ou pouco pobres - e outras não tinham pais ou, se tinham, não sabiam. Algumas eram felizes, outras estavam na dúvida, outras pensavam que não. Gostavam todas de rir, estudavam muito pouco e eram raras as meninas que não tinham namorado ou esperança de vir a ter.

Entre si eram diferentes. Eram loiros e morenos, tinham sardas e borbulhas, olhos azuis e castanhos, óculos pouco assumidos com medo de uma bolada ou a alcunha de "cangalhas", e portavam-se de acordo com a sua natureza e vida familiar. Quando um professor deixava, trepavam pelas paredes e ... "Viva a rebaldaria!", mas se os mantinha cuidados na palma da sua mão, baixavam as guardas todas, levantavam a viseira e rendiam-se à firmeza, se a firmeza tinha amor.

Falar daquelas crianças é alinhar pedacinhos dos "puzzles" das suas vidas. Defini-las e explicá-las já não seria possível pois, indivíduos que são, serão sempre inatingíveis no rosto da sua alma. Todavia, quem os conheceu bem e privou com eles, até mais do que a família, sente que sempre houve alguns a quem foi dado chegar à porta do seu castelo... Por dois anos? Por um momento? ...

É isso o que uma escola tem de triste: eles vêm e recebem doses de ternura, saber e atenção e depois vão-se embora e não voltam mais. Para quem os conheceu, o tempo não passa; podem crescer, ter barba, bigode, casar e ter filhos que, no coração onde se instalaram, são sempre meninos e não crescem mais.

E, ao acolher cada ano os que chegam, ao comparar falhas, virtudes, sorrisos, há sempre a tendência de apelar para o passado, à procura dos outros que deixaram marcas, e eram tão iguais aos que agora chegam.

É assim que se pensa notando semelhanças: Meu Deus, a Princesa das Neves voltou! E o Manel, o Toninho... E, olha a Adélia e a Mariazinha!...

Então o tempo pára, a história repete-se e não custa tanto perdê-los mais tarde, pois ano após ano, tornam a voltar.

Parábola - A disciplina do amor por Lygia Fagundes Telles


A civilização da tecnologia, as estatísticas, os números...

Alguns cientistas monges resolveram demonstrar que existe alguma coisa de imponderável que escapa a esse materialismo que está fazendo do homem o mais infeliz dos seres. Num laboratório foram plantadas três sementes em condições e circunstâncias absolutamente iguais. Igual a terra, a iluminação e a água regada nos três vasos onde foram colocadas as sementes trigêmeas. Uma única diferença nesse tratamento: quando o cientista monge, regava a terra do primeiro vaso, dizia em voz alta palavras de fervor, esperança. Palavras de amor. “Quero que você cresça bela e forte porque confio em você. Porque nesse instante estou lhe dando minha benção do fundo do coração.”

Quando ele regava a segunda planta, quase não conversava com ela. Entregava à ela suas necessidades básicas como água, verificava a iluminação e se quer demonstrava nenhum sentimento para com àquela planta.

Mas quando chegava a vez do terceiro vaso, ele só tinha palavras de hostilidade, desafeto. “Você será uma plantinha anêmica, feia, não acredito na sua sobrevivência. Está me ouvindo? Não gosto de você!” E ela ouviu.

Não somente ela, mas as outras também ouviram e sentiram a diferença de tratamento. A semente amada resultou numa planta vigorosa e cheia de graça. A semente com indiferença cresceu indiferente, sem a exuberância da primeira. Mas, a semente rejeitada, virou uma planta obscura de caule entortado e folhas tímidas, a cabeça pendida para o chão.

O que salvará a humanidade é a esperança que devemos ter no outro. A credibilidade que você deve demonstrar para com seu próximo. Se monges conseguiram fazer essa mudança com plantas; imagine educador, o poder que temos em nossas mãos para transformar um grupo de alunos em seres melhores e vitoriosos no futuro!