sábado, 18 de fevereiro de 2012

Bambolê por Andréa Rosa.


Mais um ano inicia. Levanto-me afoita em presenciar a mais uma “Semana Pedagógica do Colégio”. Hoje, especialmente teremos no cardápio uma reunião com todos os grandes mestres do colégio. Da Educação Infantil ao Ensino Médio. Encaminho-me para esse “encontro do saber” esperando receber mais conhecimentos do que minha vã capacidade permitiria. Se isso for possível! Talvez sugestões de ações práticas ou em como dinamizar mais as minhas teorias tão amplas. Quem sabe resignar menos as minhas teorias. Quem sabe falarão algo excessivamente diferente do que eu tenha ouvido. Mas, sinceramente? Acredito que as mesmas falas se repetirão.

Porém, ao chegar, me deparo com mais uma proposta, no mínimo, estranha. Fico incomodada e questiono “o que faço aqui?” Principalmente porque é início de um novo ano, o qual ainda não percebi para onde estará caminhando. Somado a isso, o horário. É tão cedo, ainda... poderia estar aproveitando para me perder em largos e longos lençóis. Me aprumar nos meus sonhos encantadores e serenos; o oposto do que poderei viver ao lado dos meus angelicais e adoráveis adolescentes.

Uma coordenadora aproxima-se e nos entrega; a mim e ao grupo; o qual encontra-se “pasmo”, se questionando entre olhares; os arcos coloridos conhecidos por bambolês! E penso “lá vem mais uma dinâmica espalhafatosa, da qual deveríamos tirar ensinamentos profundos!”

Bambolê! O que fez com que uma pessoa trouxesse para um dia eminentemente  conceitual e pedagógico esses aros de plástico, de uns 60 cm de diâmetro, aproximadamente, que foi moda numa década longínqua. Lembro que eu e minhas amigas colocávamos o aro na cintura e rodávamos. Na ocasião, nem imaginávamos como as academias iriam rever esse objeto como um poderoso emagrecedor. Haviam até algumas mais ousadas, que colocavam o bambolê no pescoço, na coxa, nos braços e giravam com a mesma facilidade.

Esse círculo sagrado em outras culturas, americanizados com o tempo, industrializados no processo da grande eclosão industrial e me perdoem, mas excessivamente engolfado em si mesmo. Chegava a um ponto de faltar oxigenação cerebral com o uso excessivo do mesmo levando quase que ao transe quem conseguia rodá-lo por mais tempo. Mas sempre tinha um lado bom, aliás, como em quase tudo na vida, a possibilidade de integração social.

Questiono novamente “onde chegaremos com essa recordação um tanto quanto estapafúrdia da infância”. Aos poucos vou entregando-me a proposta, vou percebendo os colegas, analisando os homens, especialmente os mestres do Ensino Médio, alguns muito atrapalhados, outros no mínimo estranhos, outros sem o menor jeito para administrar àquele objeto redondo e colorido; tem até um colega que ousa algumas manobras mais diferenciadas ou radicais, pela idade dele, e outro que faz questão de ser o centro das atrações. E assim, vou percebendo todos os meus nobres e notáveis colegas.

Incrível! Posso não ter percebido o término da dinâmica, muito menos ter compreendido a fundo sua proposta; menos ainda ter achado o momento útil; mas algo posso afirmar! Me vi como um aluno. Não pelo simples brincar, encantar-se com os risos e as palhaçadas e com o estranho, diferente e até interessante. Muito menos me senti como um aluno porque tenha voltado à infância; mesmo porque nunca fui uma “expert” na arte de bambolear. Mas senti-me como um aluno no momento em que ativei naturalmente meu olhar, de forma crítica sobre as pessoas. Percebendo o movimento das pessoas, os quais poderiam estar à frente da dinâmica e serem meus professores. Trazendo uma linguagem nova para a aula; querendo inovar num instrumento de apreciação; tentando o novo e ousado para nos tirar de uma rotina de trabalho tão exaustiva e, se depararam com alunos, como muitos ali, críticos, sem vontade, desprezando qualquer atitude inovadora e buscando conhecer mais intensamente as competências de cada um dos colegas, através de uma simples dinâmica. Talvez no olhar aguçado do aluno, um tanto quanto “careta”.

Foi aí que percebi minha frustração, por  ter me visto no lugar de aluno, que não mostra interesse por nenhuma das aulas que lhes são propostas. Mas, meu alívio veio em seguida, antes que tivesse que aumentar meus comprimidos antidepressivos; sou professora! Uma educadora! Posso sempre contar com uma equipe, que estará constantemente discutindo os mesmos conflitos, as mesmas dúvidas, ansiedades e medos. Tentando o novo, acertando muitas vezes e errando em outras. Mas sempre estaremos utilizando o mesmo instrumento, o qual não será o bambolê; mas o amor pela profissão!  E pensei “que bom ter participado dessa dinâmica com os olhos de um educador!”

Em um mundo onde cada vez mais pessoas se sentem sozinhas e incapazes de interagir, o bambolê acaba agindo como uma poderosa ferramenta de inserção social e concluo que “o sucesso do Colégio depende mais da qualidade do trabalho em equipe do que o brilho de algumas personalidades”.

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